Você tem um Propósito Profissional?

Quando eu faço esta pergunta, muitas pessoas me respondem não saber qual é o seu propósito. Outras me perguntam, inclusive, se ter um propósito é importante ou necessário.

A maior parte das pessoas não sabe qual é o seu propósito basicamente por duas razões:

  1. Nunca pensaram seriamente nesta questão. Elas conduziram suas vidas, até hoje, sendo guiadas por metas e objetivos pessoais, ou agindo de forma reativa, fugindo dos medos que as perseguem;
  2. Não pensaram seriamente nesta questão por que o nível de consciência em que elas vivem ainda não permite perceber a importância do propósito, nem se conectar conscientemente com ele.

O propósito é uma expressão dinâmica de nossa essência, o aspecto ativo de nossa verdadeira identidade. Ele sintetiza tanto aquilo que melhor sabemos fazer, nossos dons e talentos inatos, quanto aquilo dá significado à nossa vida, nossos valores centrais.

Algumas pessoas já sabem qual é o seu propósito ou vocação nos primeiros anos de vida. Geralmente são artistas como músicos, cantores, escritores, dançarinos e escultores. O dom que elas carregam é tão forte que não conseguem pensar em qualquer outra atividade para dar sentido às suas vidas. Um segundo grupo vai descobrindo o seu propósito através da tentativa e do erro. Elas escolhem profissões ou carreiras que parecem estar alinhadas com suas expectativas e capacidades, mas aos poucos  descobrem que o trabalho não gera autorealização, o que as fazem sentir facilmente vazias e desmotivadas. Ao final, esta experiência de vazio e desorientação muitas vezes é acompanhada de descobertas e insights sobre o verdadeiro propósito. Estas pessoas usam a frustração para buscar mais profundamente a verdade sobre si mesmas no campo do trabalho.

Por último, temos o grupo de pessoas que nunca descobrem seus propósitos ou vocações. Elas se acostumaram a ver o trabalho como algo penoso, um dever ou uma obrigação. É este grupo de pessoas que associa, de alguma maneira, a palavra trabalho ao seu significado original – do latim “tripalium”, que significa o nome de um instrumento de tortura de madeira. Faz parte deste grupo pessoas com baixa qualificação profissional,  que aceitam qualquer forma de trabalho para sobreviver. São aqueles que não acreditam que seja possível conjugar autorealização com atividade profissional, pois não desenvolveram o autoconhecimento para se libertarem de crenças familiares e coletivas limitantes.

Não ter um propósito é um grande limitador profissional. Sem uma compreensão do objetivo maior que direciona seus os esforços, uma pessoa tende a estabelecer objetivos de curto-prazo para atender as necessidades imediatas. Isso cria um círculo vicioso, pois objetivos de curto-prazo não geram satisfação duradoura, que por sua vez  obrigam a definição de novos objetivos de curto-prazo, e assim por diante. Como alguém comentou, uma excelente definição de neurose é continuar fazendo a mesma coisa esperando um resultado diferente.

O que alimenta os círculos viciosos é a insatisfação das necessidades básicas de Maslow, que foram traduzidas pelos três primeiros níveis de consciência descritos por  Richard Barrett:

  1. Consciência de Sobrevivência: significa encontrar conforto e segurança no mundo material através de valores como segurança financeira, saúde e autodisciplina;
  2. Consciência de Relacionamento: se manifesta através de relacionamentos harmoniosos com a família, amigos e colegas, através de valores como família, amizade, respeito e tradição;
  3. Consciência de Autoestima: se traduz no orgulho em relação ao resultado ou desempenho do seu trabalho através de valores como eficiência, crescimento profissional e ser o melhor.

É preciso lembrar que a satisfação das necessidades físicas e emocionais é fonte e de motivação até o início da fase profissional, em torno dos 22-30 anos. Se você se libertou das crenças limitantes associadas a estes três primeiros níveis de consciência – crença de não ter o suficiente, de não ser respeitado/amado o suficiente e crença de não ser o suficiente – você facilmente alcançará a satisfação destas necessidades. A partir deste estágio você começará a se preocupar com a satisfação das necessidades de crescimento de Maslow, descritas nos quatro últimos níveis de consciência do modelo Barrett:

  1. Consciência de Transformação: se traduz pelo desejo de expressar plenamente quem você é, através de valores como autorresponsabilidade, inovação/novas ideias, coragem/assumir riscos, etc.;
  2. Consciência de Coesão Interna: que se manifesta pelo desejo de identificar e expressar seus valores e propósito a partir de valores como honestidade, integridade e confiança;
  3. Consciência de Fazer a Diferença: significa conexão com pessoas, grupos e organizações que tenham propósitos similares a partir de valores como parceria, colaboração e desenvolvimento de liderança;
  4. Consciência de Servir: se traduz pelo desejo de servir de forma desinteressada ao mundo através de valores como ética, responsabilidade social e futuras gerações.

Falta de Propósito e Insatisfação no Trabalho

A discussão sobre a falta de propósito pode explicar, em grande parte, o alto nível de insatisfação atual nos ambientes de trabalho. Uma pesquisa do Instituto Gallup em 142 países no mundo no período de 2011/2012 revelou que apenas 13% dos funcionários, ou seja, 1 em cada 8, estão psicologicamente engajados com o seu trabalho. Esta é a proporção de pessoas que contribuem de forma significativa às empresas nas quais trabalham. Já 63% sentem-se desengajadas, o que significa que elas não se sentem motivadas para fazer o seu melhor, trabalhando apenas o necessário para não perderem seus empregos. E por último, 24% dos funcionários se sentem ativamente desengajados, o que significa que eles não se preocupam com o futuro da organização e prejudicam o funcionamento da empresa.

Uma parte destes altos níveis de desengajamento está relacionada à falta de alinhamento do propósito do funcionário com o propósito da organização – isto quando a organização tem um propósito ou missão claros. Mas o que explica o pouco interesse em alinhar os propósitos e aumentar o nível de engajamento dos funcionários?

Se olharmos a faixa etária dos líderes atuais, veremos que a maioria está localizada entre os 45-65 anos. Esta geração aprendeu que sua atividade profissional deveria satisfazer apenas suas necessidades físicas e emocionais. Para estes líderes, refletir sobre o propósito pessoal e o da organização não entendido como uma prioridade, e para alguns é até irrelevante, pois eles não conseguem conectar esta discussão com os objetivos mais tangíveis do negócio, tais como as metas financeiras, de satisfação do cliente e de desempenho operacional. Essa é uma das razões pelas quais as declarações de missão, visão e valores ficam restritas apenas as paredes e murais da empresa.

Por outro lado, a maioria dos jovens que saem das universidades atualmente vem de famílias que puderam, em grande parte, satisfazer suas necessidades físicas e emocionais. De alguma maneira eles sentem que satisfazer estes níveis não é um grande desafio, nem o objetivo maior de suas carreiras. Eles começam olhando para o patamar superior da hierarquia das necessidades de Maslow – o da autorealização, em que a busca do propósito é um dos pilares principais. Esses jovens não querem apenas contribuir para o crescimento da organização, mas trabalhar numa empresa da qual se orgulhem e que seja capaz de fazer a diferença no mundo. Isso significa viver seus propósitos, alinhando-os com a missão e visão da organização. Esta geração quer ver as declarações de missão, visão e valores corporativos influenciando as decisões que irão impactar o seu futuro e o de suas empresas.

Como vocês podem perceber, estamos falando aqui não apenas de um choque de gerações, mas de modelos mentais e níveis de consciência diferentes que não estão conseguindo dialogar, pois a força da hierarquia e da senioridade cria uma barreira na comunicação e no entendimento mútuo entre estas gerações. Consequentemente, muitos destes jovens profissionais se sentem altamente frustrados, o que gera desmotivação, absenteísmo, depressão, altos níveis de rotatividade e, em muitos casos, a procura de outras oportunidades de carreira ou negócio próprio (empreendedorismo).

Esse conflito também pode ser visto como uma grande oportunidade para as empresas que levam a sério suas declarações de missão, visão e valores, que encorajam seus colaboradores a refletir sobre seus propósitos profissionais e encontrar maneiras de expressar este propósito. Esse processo vai exigir maior flexibilidade nas estruturas organizacionais (diminuição na hierarquia), nas relações de trabalho (maior participação nas decisões e abertura para novas ideias) e investimento em parcerias com todos os stakeholders (funcionários, clientes, fornecedores, acionistas e comunidade). Este processo começa necessariamente com a transformação pessoal, em especial dos líderes, o que irá gerar um reflexo positivo sobre o futuro da organização.

Reflexão sobre o Propósito

O primeiro passo é refletir de forma profunda e continua sobre o significado e o propósito do seu trabalho, e que pode ser facilitado se realizado em parceria com alguém com quem você tenha uma relação de abertura e confiança. Pode ser um amigo, coach, colega ou superior no trabalho.

Abaixo, algumas perguntas que podem ajuda-lo a refletir sobre o seu propósito. Mas, atenção! Não responda de forma automática – repita a pergunta várias vezes e reflita sobre ela por algum tempo, antes de começar a escrever. Repita o exercício mais de uma vez, para ter certeza de que as palavras expressam aquilo que você realmente acredita.

  • Que atividades profissionais fazem com que você perca a noção do tempo?
  • Que atividades fazem com que você se sinta muito bem consigo mesmo?
  • Que pessoas mais te inspiram, tanto aquelas que você conhece diretamente ou não? Que qualidades em cada pessoa mais te inspiram?
  • Que habilidades, talentos ou capacidades você expressa com facilidade?
  • O que as pessoas geralmente pedem para você como forma de ajuda? No que você é mais requisitado?
  • Se você fosse convidado a ensinar algum tema ou assunto, qual seria?
  • Do que você se arrependeria se não for capaz de expressar, fazer, ter ou ser completamente?
  • Que causas você apoia ou se conecta fortemente?
  • Se você fosse dar uma mensagem para um grande número de pessoas, quem seriam essas pessoas? E qual a mensagem que você gostaria de transmitir a elas?

Ao final verifique as palavras ou expressões que mais se repetiram nas suas respostas, e com base nelas crie uma frase ou declaração que contenha as seguintes informações: o que você quer fazer/realizar, para qual público e qual o resultado que você quer alcançar. Esta declaração pode levar algum tempo para ser concluída, por isso, não tenha pressa. Ao final deste processo você deverá ter em mãos uma declaração que seja motivadora e desafiadora, e que inclua os seus dons, talentos e qualidades únicas. Que expresse de forma clara e sucinta a sua maneira de se realizar e contribuir com o mundo.

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