O Custo do Medo: Quanto Custam Os Valores Limitantes Para Uma Organização?¹

Todas as organizações funcionam com base num conjunto de valores conscientes ou inconscientes. Alguns dos valores são positivos, tais como comunicação aberta, confiança, honestidade, integridade e satisfação do cliente. Se estes valores são totalmente aceitos e praticados diariamente, com o tempo se tornarão uma parte integral da cultura da organização e um ativo positivo.

Também é possível que as organizações funcionem a partir de valores negativos ou potencialmente limitantes. Alguns exemplos desses valores são burocracia, manipulação, criar feudos e reter informações. A maior parte das organizações, dependendo do grau de saúde da cultura, irá funcionar a partir de uma combinação de valores positivos e potencialmente limitantes.

Outra maneira de descrever os valores potencialmente limitantes é utilizando o termo valores baseados no medo. Isto porque os comportamentos associados com estes valores são, ou baseados no medo, ou criam medo, ou geralmente os dois.

Nossa pesquisa mostrou que valores baseados no medo podem reduzir de forma dramática a lucratividade de uma organização e, no pior cenário, levam o negócio à falência. A energia associada para a manutenção dos valores baseados no medo é a energia não disponível para o trabalho produtivo.

Por exemplo, a competição interna está enraizada em medos relacionados à autoestima. Quando nós competimos ao invés de colaborar, estamos mais focados no interesse próprio do que no bem comum. As pessoas que se comportam de forma competitiva interpretam a vida como um jogo entre ganhadores e perdedores. Jogo no qual eles precisam ganhar a qualquer custo. Criar feudos e reter informações são motivados por necessidades semelhantes. Já a hierarquia está relacionada a medos associados com a ordem e o controle.

O medo por traz das hierarquias rígidas é de que “não se pode confiar nas pessoas”, o que demanda o microgerenciamento. Dentro de uma estrutura hierárquica, quanto mais leal e confiável você é, maior é a posição que você pode alcançar. Aqueles que investem na autoestima a partir de seu status/posição na empresa, precisam assegurar que estão “bem na foto” em relação a seus superiores, o que obrigará uma preocupação constante em relação à imagem. Se algo der errado eles irão culpar os outros, e para chegar no topo eles podem manipular pessoas e o próprio sistema.

Os medos por trás da burocracia são de que “as coisas irão desabar se a ordem não for mantida”, e “as pessoas irão ludibriar o sistema se não existirem controles”. Por isso, tudo precisa ser checado (e rechecado) constantemente. A burocracia e a hierarquia se alimentam mutuamente na medida em que existem pessoas que precisam ter poder sobre outras. A busca do poder, por sua vez, gera a criação de silos ou feudos, uma outra estratégia do medo para reforçar a consciência de autoestima.

Todos esses comportamentos que nascem do medo criam entropia cultural. A energia envolvida em sustentar a competição interna, burocracia, hierarquia, criar feudos, imagem, culpar e reter informações não está disponível para o trabalho produtivo. O esforço e o tempo, necessários para apoiar esses valores potencialmente limitantes, resultam numa perda de produtividade, eficiência e oportunidades.

É com esta compreensão que realizamos o cálculo do “custo do medo”. Após termos completado a avaliação de valores da empresa e soubermos quais valores potencialmente limitantes aparecem na cultura, perguntamos a grupos de funcionários em diferentes níveis da organização para avaliarem o impacto percentual dos valores potencialmente limitantes sobre a perda de produtividade e de oportunidade. Para isso os funcionários precisam oferecer exemplos reais que apoiem suas estimativas. Nós consolidamos os resultados por níveis hierárquicos, e então multiplicamos a porcentagem média pelo custo total do funcionário (salário mais benefícios). Em seguida, nós multiplicamos a porcentagem média da perda de oportunidade pelas vendas totais e, finalmente, adicionamos os resultados destes dois passos para descobrir o impacto financeiro da entropia cultural sobre a organização.

Os dados abaixo mostram os valores potencialmente limitantes e o custo anual de empresa inglesa, com base numa pesquisa de valores respondida por 154 funcionários. A avaliação da equipe de liderança gerou um resultado bastante similar.

Valor Potencialmente Limitante Custo Anual (em libras)
Burocracia 2.519.465
Confusão 4.450.090
Criar feudos 2.470.554
Reter informações 2.287.663
Hierarquia 874.058
Trabalho excessivo 263.072
Foco de Custo-Prazo 4.873.145
Outros valores (menos votados) 1.246.140
Total    18.984.190

Esta organização tinha um faturamento anual de 48 milhões e uma folha salarial (só funcionários) de 0.9 milhões. Ela teve um prejuízo de 0.7 milhões no ano de 2.000. Nós calculamos que o custo de seus sete valores potencialmente limitantes estava em torno de 18 milhões.

O custo do cálculo do medo (entropia) ofereceu a esta empresa dados financeiros concretos que justificaram a necessidade de uma mudança de cultura. Mesmo que as estimativas estivessem corretas em apenas 20%, a economia gerada pela eliminação do custo do medo seria suficiente para transformar o prejuízo em lucro significativo.

Nós somos os primeiros a admitir que os resultados não são científicos. Mas eles fornecem uma estimativa do impacto financeiro dos valores potencialmente limitantes sobre o desempenho das pessoas. Nós descobrimos ainda que, cada valor potencialmente limitante que surge entre os 10 valores mais votados da cultura da empresa, representa uma perda em torno de 7% do faturamento. Desta maneira, reduzir o nível de entropia da empresa em 10 pontos – por exemplo, de 30% para 20% – pode ter um efeito extremamente positivo sobre os resultados financeiros.

¹ Artigo escrito por Phil Clothier, CEO do Barrett Values Center.

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