A Grande Transição Profissional – do Gerente (Ego) para o Líder (Alma)

Nossa vida pode ser dividida em duas fases bastante distintas. A primeira é focada no desenvolvimento do ego, a construção de uma identidade baseada nas expectativas familiares e sociais e dura até o final da fase adulta, em torno de 28 anos. O foco do ego é o interesse próprio – “o que eu possa ganhar com isso”.

Desenvolver um ego é muito importante, pois é com base nesta referencia psicológica que tomamos decisões no dia-a-dia que nos permitem interagir e evoluir nos três primeiros níveis de consciência definidos por Maslow e Barrett – Sobrevivência, Relacionamento e Autoestima. Enquanto sentirmos algum nível de medo ou ansiedade relacionado a algum destes níveis – sustentados por crenças de não ter o suficiente, não ser amado o suficiente e não ser importante o suficiente – ainda não finalizamos o processo de integração desta dimensão da identidade.

Por exemplo, acredito que todos nós temos exemplos de líderes que precisam centralizar as decisões e se comportar de forma autoritária (crença de não ter o suficiente); ou que manipulam ou se comportam de forma complacente para serem aceitos e gostados (crença de não ser amado o suficiente) e, finalmente, de competir com sua própria equipe e colegas para se sentir importante (crença de não ser importante o suficiente).

As crenças de sobrevivência são criadas entre os 0 e 2 anos de idade. Se os pais são capazes de dar segurança física e emocional para a criança nesta idade, ela irá crescer se sentindo segura para lidar com sua vida nesta questão. Se eles não conseguirem, a criança carregará crenças e experiências limitantes relacionadas à sobrevivência. O mesmo acontece com as crenças de relacionamento – criadas entre os 2 e os 9 anos de idade – e as de autoestima – entre os 9 e 18 anos.

O que significa que, ao entrarmos no mercado de trabalho, carregamos dentro de nós um conjunto de crenças e valores subconscientes relacionados a estes três primeiros níveis de consciência que podem tanto nos apoiar quanto limitar ou sabotar nossos esforços e objetivos. Na medida em que ganhamos consciência de que nossas dificuldades são geradas por nós mesmos – pela nossa identificação com um sistema de crenças e valores disfuncionais – então começamos a nos libertar do sentimento de impotência e vitimização (“as situações acontecem contra mim”), e trabalhar com foco na autorresponsabilidade (“as situações acontecem para mim”).

A segunda fase da vida, a partir da meia-idade, é focada na conexão com a alma, a dimensão espiritual da nossa identidade. Esta é independente da nossa formação familiar e cultural, tem uma sabedoria própria e, embora necessite do corpo para realizar o seu propósito, em ultima análise ela não é a nossa dimensão física. O foco da alma é o bem comum – “como eu posso ajudar”.

Dois fatores podem anos ajudar a conectar com nossa essência espiritual – a evolução natural da nossa consciência (por já termos completado o processo de satisfação das necessidades do ego), ou uma crise profunda, como um grande fracasso profissional ou financeiro, uma doença grave (própria ou de uma pessoa querida), um acidente envolvendo risco de vida, a falta de significado na vida seguido de uma depressão, etc.

Neste artigo estou descrevendo a alma como a nossa essência, consciência ou identidade espiritual, a fonte de nossas intuições, inspirações e imaginações criativas. É a conexão consciente com a alma que nos permite responder às grandes questões da vida – quem sou eu, qual o meu propósito e como posso realizar este propósito através da minha visão. E é esta conexão que nos permite encontrar e sustentar o significado por trás de nossa vida e trabalho.

Muitos dos executivos e profissionais de sucesso que me procuram estão justamente vivenciando, de forma não consciente, esta transição. Eles alcançaram tudo o que a sociedade (“o outro”) acredita ser o objetivo mais importante – sucesso financeiro e profissional. Desde os anos escolares este profissionais se esforçaram para serem os primeiros, para se destacarem do grupo e serem visto de forma privilegiada.

Mas em algum momento da carreira a lua de mel com o “sucesso aos olhos dos outros” começa a perder força. Gradativamente, uma sensação de vazio e falta de sentido começa a tomar forma, até se transformar numa experiência forte o suficiente para obrigar a pessoa a refletir sobre quais são suas prioridades e qual a sua direção de vida. Neste momento, eles me perguntam: Será que fiz a escolha errada? – todos anseiam por alcançar a minha posição e privilégios, mas eu mesmo já não sinto isso faz sentido para mim; o que aconteceu? – onde e como perdi o entusiasmo, a motivação?

Eu respondo que não existe nada de errado. Estes profissionais de sucesso simplesmente completaram uma etapa de suas vidas, definida pelas necessidades do ego. E que mais sucesso material ou profissional não será capaz de preencher as necessidades que se tornarão cada vez mais importantes nos próximos anos – a necessidade de significado ou propósito, de fazer a diferença no mundo, de deixar um legado para as próximas gerações. Essas são as necessidades da alma. É apenas neste estágio que ele pode ser um líder, pois seu foco é o desenvolvimento das pessoas e da organização (longo-prazo), e não mais em seus objetivos pessoais (curto-prazo).

Sem uma compreensão desta transição de identidade e necessidades, muitos líderes continuam a investir no mesmo caminho, até que não tenham mais forças ou motivação para continuar.

Para completar esta transição tão importante é necessário desenvolver algumas compreensões fundamentais:
1. Reconhecer que o conjunto de crenças do passado (do ego ou mente condicionada) não é suficiente para responder as perguntas que estão emergindo nesta nova etapa da vida;
2. Reconhecer que existe outra dimensão da identidade que ainda não foi reconhecida e explorada – a dimensão da alma ou essência;
3. Vivenciar determinadas experiências para que esta conexão ocorra com mais frequência e profundidade – isso é possível através da prática do silencio ou meditação (mindfulness), participar de momentos de reflexão individual ou em grupo sobre algum tema existencial, estabelecer uma conexão mais próxima com a natureza, expressar dons artísticos ainda não reconhecidos, perceber a linguagem da sincronicidade, etc.
4. E, ao final do processo, reconhecer que você é esta essência, esta identidade espiritual. Que tudo o que você viveu na primeira metade da vida foi uma preparação para compreender quem você realmente é e como expressar esta realidade no mundo.

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